Deusa

domingo, 31 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
simon davis - via artodyssey

Umedece os papéis na língua
Empoeirados,
e sutilmente ficam mais espessos.
Os capítulos se descolam
e são mastigados com voracidade
Ao fim? Nada além de páginas em branco.

E vai, devovê-los aos lugares
Para outro lê-los.
Tua água de boca é nobre
Atire sementes e germinarão girassóis.

Embebece o algodão com sangue
Outro ciclo destemido.

E vai, devolvê-lo
no ritual ao renascimento.
Teu sangue desprendido é fluído sagrado
Entregue à Terra e nascerá a Lua.

Desprende as pedras do muro de batom
E os lábios que a beija, sequer sabe quem és.

E vai, devolver...
Teu suor evaporado concebido do prazer.
É o orvalho do amanhecer.

🌊

sábado, 30 de dezembro de 2017 2 comentários

O pensamento dança ligeiramente
e as palavras presas fazem o estrago de um projétil
Alojadas e enfurecidas
descem queimando quando as engulo.

Anseio que se vão depressa
Na tentativa de dispersão
as ensaio
Juntando uma a uma
enquanto conto-gotas da cafeiteira.

A fala logo se forma,
com menos entusiasmo do que quando falo de ti:
"Essa gola, quase três pescoços meus!"
"É o corte, menina! Decote canoa!"

No estômago,
cortantes feito fios de papel
festejam borboletas algozes.
Qual a elucidação senão que têm asas de fogo?

"Leve canoa!
Me leve pra longe de dentro de mim!"

Por um triz, retrato escrito

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
Um acervo raro de cachos negros, quem os criou, fez de molde seus próprios dedos.

Uns fiozinhos enraizados na testa que descem delicadamente até a sobrancelha e continuam sobre o maxilar inferior - agora, singelos - ‎quase tocando o pescoço.
Como se referem à pele dos pêssegos.

Quiseram os pêssegos do pomar de minha avó, ter um tecido tão implacável!

A blusa estampada com micro cerâmica portuguesa, abundantemente florida com fundo cor de creme de café - deixe-me dizer o apreço por este grão.
Uma primavera inteira vestindo a flor-rainha...

Eu, despretensiosamente fascinada! 

A nobreza da escrita: dizer muito do indescritível.

Inverno salteador

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
Outra pétala se ausentou,
pude vê-la sem reparar.

O odor cessou
Não houve néctar para ser recolhido
As abelhas hibernaram-se na colméia.

Pudera!
Naturalmente degenerei
Antes que uma bela apaixonada
me fizesse bem-me-quer.

Esperança II

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
O nascimento, pra dar o nome
A criança, pelo fim da fome
O rural, pelo urbano
A superprodução, pelo reconhecimento
O expediente, pelas dezoito horas
O lar, pelo retorno
A vida, pela eternidade
A morte, pelo momento.

Esperança,
corta-gosto da infelicidade.

Últimos chiados

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Foi-se o tempo que escrevia carta de amor.

A primeira dizia pouco em si, muito de mim: "Te amo".
Dose breve,
quem bebeu, nem a língua molhou.

Mas minha lembrança não será de dor.

Me calo.
Dizendo, 
sofro muito mais que amo.

Esperança I

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017 Nenhum comentário

O pensamento que invade experime provocações que nunca aprendi Se antes, talvez Ao me fazer, não disseram que em outra vivi. As emoções são como cores opostas que se complementam, mas depois esfumaçam Dura suficientemente De tudo, não há o que não esboce graça Meio tímida, ainda, marca presença. O céu é novo O dia, outra vez Renasço e esqueço que murchei noite passada. A chuva goteja no tambor Tocando samba - como as lágrimas que vem e não vão - Sem rancor Cai, como suplicou Antônio Conselheiro, no sertão.

A chuva que toca o samba trata de se potalizar. Vem e volta. Água salgada, irrita meus olhos Longe de ser para o consumo - me consome. Outrora foram sábias e firmes minhas murmurações miseráveis que custam alcançar quem me fez
Pálidas, expulsas por esses lábios cheios de tons - tão desidratados, quase quanto, o solo do vilarejo...

Suspenso, à evitar o fundo

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
Leve demais
Saboreia o gosto da guerra
pesado e sem paz.

Pisa nas cascas do silêncio
sobre o solo que desenha rendas em seus rasgos
onde enterrados os corpos guerreiros.

Leve de vazio?
Não teme que outro o complete?
E se numa hora se vai por pouco?

Inútil, a âncora cravada!
Desembaraçado, ligeiro
certeiro.

Ora, pesado demais
Cano longo projetando fogo.

pretexto

domingo, 17 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
antes
da dualidade,
a solitude
da declaração,
a reverberação
do "como?",
o "vamos?"
do beijo,
o desejo
do riso,
o gozo
do momento,
o consentimento.

anarquia

sábado, 16 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
trague o maço
vire a taça
trace a pele

o que te tem antes de mim
não me pertence o fim

abaixo a (o)pressão!

A arte de perder

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A arte de perder não é difícil de dominar
tanta coisa parece preenchida pela intenção de ser perdida
que sua perda não é nenhum desastre.

Perca alguma coisa todo dia.
Aceite a novela das chaves perdidas,
a hora desperdiçada, aprender a arte de perder não é nada.

Exercite-se perdendo mais, mais rápido:
lugares, e nomes e... para onde mesmo você ia viajar?
Nenhum desastre...

Perdi o relógio de minha mãe.
E olha, minha última e minha penúltima casas ficaram para trás.
Não é difícil dominar a arte de perder.

Perdi duas cidades, adoráveis.
E, mais ainda, alguns domínios,
propriedades, dois rios, um continente.
Sinto sua falta, mas não foi um desastre.

- Até mesmo perder você (a voz gozada, o gesto que eu amava) eu não posso mentir.
É claro que não é tão difícil dominar
a arte de perder apesar de parecer (pode escrever!) desastre.

Elizabeth Bishop

nota de rodaPÉ

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
"calculistas e frios
buscam repouso entre os meus pilares roliços
sem solicitar prévia autorização."

(cabeceira traseira exausta de acolher pés carentes, inconsequentes. diria se pudesse. nem sempre consente, quem cala.)

evite se puder

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veja, não é tão miserável estar do lado de fora. fica mais fácil remover as folhas que pairam na janela. quando não convier ver o lado de dentro, é só deixar acumular.

"O tremor"

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
cercou por algum tempo e foi estreitando, como se eu fosse presa fácil ou carne barata, como quem desliza os dedos na borda do copo antes de enfiá-los dentro pra pescar a semente que ficou.

decidiu me conquistar e fez. era ousada, me via como nunca repararam - me despia sem tocar - e me falava do Cristo com tamanha convicção.

um vez enquanto elevávamos nossas preces - sendo gratas pelo trabalho, pessoas queridas e a vida -, transpirando, segurou minha mão e fez parecer que sentia medo de escorregar, como no conto de Chimamanda Ngozi, "O tremor" - do livro "No seu pescoço" - senti um tremor - talvez menos intenso que aquele que Ukamaka sentira.

o tremor, majestosamente veio desacompanhado de temor. era o próprio Cristo fertilizando um sentimento tão imaculado que nunca pensei ser digna de hospedar (?), o qual protubera até hoje numa pluralidade que não se contém. desconfio que (co)existo pra, admiradamente, dizer o quão incríveis são as mulheres; o quão incrível é ser mulher - mesmo subsistindo.


universo em expansão

terça-feira, 12 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
novos horizontes. a linha - a vida - continua a mesma, mas, apontando em novas direções.

o universo se expande pra comportar o tempo de cada indivíduo dentro do seu tempo. um novo tempo.

as circunstâncias calculam situações pra te surpreender. essas, que acredita-se que são permitidas por sua divindade - se tu não tem, tudo bem em atribuir ao que desejar.

as cobranças se intensificam. covardes, se monstrificam quando tudo decide fazer silêncio. analisam, sem seu consentimento, tudo que poderia ter sido e não foi ou como poderia ter sido o que foi. tentam te convencer que não fizeste nada certo ou que poderia ter feito melhor.
desejo que essas não tenham fôlego suficiente pra te intimidar com palavras sujas e mesquinhas.

a selvageria existencial diz que o sentimento que é neutro: deve transbordar ou dissipar. 
pra isso, te desejo a calma - progressiva. não precisa ir do fundo ao topo duma só vez, chega de sentimentos fast foods, a contemporaneidade afetiva clama saudabilidade.

as bolhinhas de sabão, são as amizades que não te desejo. cativantes, mas frágeis e passageiras - se vão sem nenhuma explicação. desejo que essas estejam até o fim - esse fim que não se sabe quando é.

antes a vida fosse organizada em parágrafos categorizados. não pode ser. o que move é a incerteza vestida de toda fé que é possível. 
"coisas arrumadas - o tempo todo - são coisas sem vida!" parte dessa desorganização, é a bagunça que os seus fazem em ti. tumultuam tudo de forma que nada dói, "nada pesa, tudo pulsa". 
desejo, não que estejam sempre presentes, mas que quando presentes, estejam intensos.

pra ti, longevidade. mas que seja sensível pra compreender que o amanhã é ermo.

contraindicação

sábado, 9 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
talvez eu não saiba amar, mas, compreender que eu não te mereço, talvez seja amor.

depois que muni de tanta proteção, sou contraindicação.

não guarde mágoas por te querer bem, longe. em algum tempo num outro espaço estamos juntos, ainda que seja num não-lugar, na utopia.

captando informação:

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
estar em sossego, é ler suas nobres palavras condensadas que alimenta saudade.

sinal de fumaça: quem  está alerta recebe a mensagem esperada que chega inesperadamente e diz tão bem, que aí ainda há vida.

palavras bem-vindas, bem ditas.

msc - movimento dos sem coração

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017 Nenhum comentário
"chegou depressa com a mala cheia e tralha vazia. cabisbaixo, murmurando mais baixo ainda como se tivesse descontente por ter lançado a rede em águas inférteis.
lavou os pés, pisou em terra alheia e foi se ajeitando pra um descanso. nem pediu licença."

eu, fujona, fujo de quem chega entrando sem permissão. (qual será a intenção?)

"nesse dia fiquei. resistindo e cheia de medo. noutro, fiz saber de onde vinha.
disse que foi expulso dum outro coração por justa causa e não tinha onde ficar. fez foi perder a confiança dos que tinha."

no meu peito sempre cabe mais um - que mostra o real interesse desde o início.
houve um tempo que não. não cabia independente de onde, como e porque vinha até mim. depois de quando fui esse pescador frustrado - por inúmeras vezes, ainda sou - entendi o que é a empatia.

eu me apaixono por quem conquista e compartilha confiança comigo. muito mais, pelos que não pedem confidencialidade por acreditarem que eu não seria desagradável a tal ponto.
isso! a palavra que me define: inconveniente. tô superando o impulso que me impede de ser prudente pra saber quando não é momento pra mim.

não quero ser o tempo todo, esse pescador insensato, que invade onde não foi convidado. 
à quem violei a privacidade, ofereço sincero perdão. gratidão, por não me receber com pedras em mãos.

e adivinha? você é a pura empatia.
coração e sua funções socioemocionais.
 
Desenvolvido por Michelly Melo | Ilustração por heypik.com