prudente como a serpente

domingo, 30 de setembro de 2018 Nenhum comentário
não excites o meu amor,
até que queiras.

Nosso destino há de ser um só (Se quiseres)

sexta-feira, 28 de setembro de 2018 Nenhum comentário
Ante, trocaram o segredo das fechaduras,
ergueram muralhas no quintais,
minaram as calçadas...

Quando a fera romper as grades e o concreto,
Decerto, ninguém há de ser poupado

Mas tu,
Inocente alvo, presa primeira
De tudo, ainda seremos filhos do Deus de Davi,
Pequenos, juntos, a colocaremos por terra.

"Meu coração tá pequeno!"

quinta-feira, 27 de setembro de 2018 Nenhum comentário
A passos largos, chego ao segundo ponto de ônibus mais próximo - o primeiro: menos gente, mais perigoso -, olhei a previsão de chegada da linha, sentei num banco vazio.


Surge um senhor. Diz algumas palavras. Solta murmurinhos reclamões e ameaça partir. Então desligo a música e disponho a ouvi-lo.

- "Ah, agora cê ouviu? Fica nesse WhatsApp"
- "..."

[Não sabe que a ferramenta não é minha prioridade. Certo é, que estava escolhendo uma lista de reprodução para o momento]

Roupas aparentemente limpas, exalando odor etílico. Corotinho, - de qualidade ruim, consumido pela classe trabalhadora - de meio litro de pinga barata, em mãos.

- "Desculpe, eu tava chorando, desculpe!"
- "Todo mundo chora, senhor!"
- "Dizem que homem não pode! Sou caipira, lá de Minas! Cê já chorou?"
- "Sim, senhor"
- "E por quê?"
- "Ah, não sei. Não lembro, as vezes acontecem umas coisas na vida..."
- "Isso, por isso que a gente chora"
- "Hum..."
- "As pessoas me desprezam, mas tenho o meu valor"
- "Sim, senhor. Importante ter essa consciência"
- "As pessoas não dão valor em mim. Cê não sabe da minha vida"
- "Justamente, não sei"
- "Mulher é um bicho..."
- "Não senhor!"
- "Mulher é um bicho mais inteligente que homem!"
- "Não, não podemos pensar assim..."
- "Mas são... Eu fui traído e tô apaixonado..."
- "Que triste"
- "Você já fez isso? Ou alguém já fez isso com você?"
- "Não senhor, felizmente"
- "Então, cê não sabe"
- "Graças a Deus"
- "Eu amava... amo essa mulher"
- "Complicado"
- "Nove anos juntos! Eu fui sincero, oh, falei que ficaria com ela pro resta da vida... ela também disse"
- "... sua esposa?"
- "Mas ela me traiu"
- "Ela já deve ter se arrependido"
- "Não importa. Outro dia vi ela..."
- "Em algum momento algo se perdeu"
- "Oh, eu amo aquela mulher"
- "É assim, as vezes as pessoas são egoístas e nos machucam. Devemos tentar não magoar quem a gente ama"
- "Isso mesmo..."
- "..."
- "Eu sou um cara legal. Sou um bom mecânico, gosto de jogar futebol lá no XV de Novembro. Sou goleiro (e disse que as vezes também ocupa outra posição que não faço ideia qual seja)."
- "Ótimo. Importante ter essa consciência. / Jogue bola pra passar o tempo!"
- "Você é legal e bonita... sabe disso?"
- "Sei sim"
- "Oh, todas essas pessoas aí... aquela ali com a camiseta do supermercado, né?"
- "Rs..."
- "Ninguém liga pra mim, ninguém me dá valor... Eu tô bebendo sim, mas ninguém sabe dos meus problemas. Eu bebo mas fico consciente..."
- "Muito bem"
- "Sou respeitador..."
- "Hum..."
- "Meu coração ama ela... Quanto tempo cê acha que leva pra deixar de amar?"
- "Não sei não. O tempo vai dizer..."
- "Me disseram que são dois anos!"
- "Não existe receita. O tempo vai dizer"
- Moça, amanhã o que cê vai pensar de mim?"
- "Pensarei nada não, senhor... não posso julgar as pessoas!"
- "Viu? Cê é inteligente. As pessoas são o que pensam...Gosto de você. Amo você"
- "Hum..."
- "Amo todo mundo..."
- "Ok!"
- "Ok, é o que?"
- "Está certo, tudo bem"

[O ponto esvaziou-se e enchi de medo...]

- "Com todo respeito, cê é bonita. E tá conversando comigo. Sou feio, tô bebendo..."

[Gesticulou que apertasse sua mão. Apertei.]

- "Cê é gente boa..."
- "Bom saber..."
- "Então tchau!..."
- "O senhor já vai?"
- "Não, estou esperando o ônibus, mas... tchau!"
- "Tchau"

[Embora a solitude seja minha confidente, aquarianos gostam de gente, de seres, vivos.]

Encaixo os fones e ligo a música. Ao fundo, sigo ouvindo:

- "Meu coração ta pequeno! Meu coração tá pequeno! Eu tô apaixonado! Já fiquei com outras, mas eu sou sincero... não digo que amo, se não amo... (e disse umas coisas que objetificam mulheres)"

O ser humano é um bicho sensível, humano. A infidelidade fere amores imortais. A SOLIDÃO É FERA, A SOLIDÃO DEVORA.

Desci no ponto mais perto de casa. Passei no mercado da esquina, comprei um bolo de laranja... e começa a tocar:

"Não há ser humano que aguente
Tanta solidão vai acabar com minha raça
Não há nada que eu faça
...
Bebendo pra entender o que cê fez comigo
Um copo de cerveja, um coração ferido"

Chego em casa. Subo a escada e ao fim do corredor, está lá, Sophia (a criança que mais amo no mundo), com um body de fundo branco estampado com o tigre da turma do urso Pooh.

________
O final feliz dos contos, aquele provoca desejos intangíveis, construídos sob uma visão única possível do amor, esse mal nunca me enganou. Por que o amor não cabe em nenhum confinamento. Nem na literatura. Nem mesmo no peito.

Final feliz é isso. Ainda que triste ou desmotivad@ com as batalhas inertes da vida, ao fim do dia, o amor estar te esperando. 
Se foi minha última prosa? A última vez que vi o amor ao fim do corredor vestindo body branco? Final feliz.

AMAR É FORTALEZA, FONTE DE VIDA.

26 de Setembro de 2018.

Negros que lutaram com o exército do RS receberam a morte como recompensa

quinta-feira, 20 de setembro de 2018 Nenhum comentário
"Uma das guerras mais importantes do país, a Revolução Farroupilha também foi palco de uma das histórias mais controversas, desleais e intragáveis da sociedade brasileira. Negros que lutaram com o exército do RS receberam a morte como recompensa no Massacre de Porongos"

via @Savagefiction

"Tudo começa na famosa Guerra de Farrapos, que colocou do lado o império contra os proprietários de terras escravagistas. Na época o Brasil era dividido em províncias e o RS era a província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Os farrapos queriam independência.

Os insurgentes gaúchos, proprietários rurais reivindicavam um tratamento mais privilegiado como a diminuição dos impostos, porém a província tem um amplo histórico de divisões ideológicas com o Governo Regente - por várias vezes tentaram instaurar um governo próprio.

Quando a revolução tomou caráter separatista, foi proclamada a República Rio-Grandense em 1835. Eram muitas frentes de batalhas, enquanto algumas tentavam destituir o presidente provincial em Porto Alegre, outras confrontavam o exército do império.

Com uma nova república as regras poderiam ser diferentes, inclusive as leis de escravidão. Mas se engana quem acredita que os Rio-grandenses eram abolicionistas visionários da liberdade para todos. A guerra que durava anos necessitava de recursos bélicos, principalmente soldados.

A princípio os negros mantiveram seus trabalhos escravos, mas logo foram convidados para a luta pela nova república sob a promessa de receberem a liberdade . Morrer no campo de batalha era melhor do que no tronco com grilhões, muitos agarraram a chance com fervor.

Dois corpos militares foram criados, com mais de 400 homens que vinham inicialmente de onde hoje residem os municípios de Canguçu, Piratini, Pedro Osório, Arroio Grande e outros. A grande maioria dos negros não eram libertos pelos farrapos, estes no máximo vendiam para a guerra.

Então quando atacavam uma fazenda inimiga, eles ofereciam a carta de alforria para que fizessem parte do exército. Os negros nunca tiveram os mesmos ideais da República Rio-Grandense, estavam ali pela sua sobrevivência e a esperança de liberdade.

Apesar disso, lutavam com ferocidade. Criaram  bastante temor nos militares do Império. “Nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo…” - Giusebbe Garibaldi em biografia escrita por Alexandre Dumas.

Participaram de batalhas importantes como a do Batalha do Seival, quando os revoltosos gaúchos enfrentaram as tropas imperiais para derrubar o presidente da província - o equivalente ao governador nos dias de hoje. Cada vitória era um combate pela liberdade dos seus irmãos negros

O conflito entre as duas repúblicas era danoso para ambos, na verdade o Império nem reconhecia aquela província como república. Então tentou finalizar o conflito (de 10 anos) de forma diplomática, até prometendo ressarcir os gastos com o conflito de alguns proprietário.

O tratado de paz começou a se consolidar entre o império e a república Rio-Grandense, mas um grande impasse surgiu: o que fazer com os lanceiros negros que lutaram por uma década ao lado dos farrapos? O Brasil não iria alforriar negros com treinamento militar.

Alguns farroupilhas entregaram os negros de volta a escravidão outros resistiram temendo uma rebelião pela traição que estavam cometendo. O responsável pela aproximação e tratado com os Farrapos era Luiz Alves de Lima e Silva, mais conhecido Duque de Caxias.

Em  1844, Duque de Caxias, com general farroupilha David Canabarro chegaram a uma solução para o conflito. Canabarro ordenou que os Lanceiros negros montassem acampamento, desarmados, no local conhecido como Arroio Porongos, atualmente chamado de Pinheiro Machado.

Na época os acampamentos eram segregados, os farroupilhas estavam em outro local e nem parecia haver problemas já que um tratado de paz estava para se concretizar. Mas na madrugada do dia 14 de Novembro daquele ano os lanceiros negros foram atacados pelo exército imperial.

Os Lanceiros assassinados foram de 600 a 700, como vocês sabem Duque de Caxias se tornou o patrono do exército Brasileiro. Relembrar essa história é honrar os verdadeiros heróis da liberdade."



Texto de Ale Santos, disponível em @Savagefiction
_

Notas: a) Todo 20 de Setembro, ainda é celebrado o dia do gaúcho. Existe no ato, intenção dolosa, pois eles nunca venceram a batalha contra o império.
Outro fato, é que aqueles que derramaram seus sangues a espera da liberdade, permanecem na insignificância, ano após ano, caminhando para a perpetuidade.
b) Grata sou, ao querido Dani de Lucca, por todo conhecimento e colaboração com indicações.

re·sis·tên·cia

quarta-feira, 5 de setembro de 2018 Nenhum comentário
resistência foi ele querer continuar, quando recusei as setas e segui fora da curva.



contrapoder

terça-feira, 4 de setembro de 2018 Nenhum comentário
se desmedido meu proveito
apague as luzes e não me olhe na penumbra da saudade,
perdida,
sem rumo

anuncie, pois, 
da pedra mais alta da cidade
pra que outras moças não comprem o meu paradoxo.
_
se as propostas de parceria te desafiarem a ser inconsistente em tuas verdades, querida, não se corrompa. desaposse-me do meu bem!

po·e·si·a

domingo, 2 de setembro de 2018 Nenhum comentário
poesia é o que ele diz entre as nossas primeira e última hora.



re·vo·lu·ção

sábado, 1 de setembro de 2018 Nenhum comentário
revolução é o que ele faz entre a chegada e a despedida.

Aquilo que é nocivo, não é meu amigo!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018 2 comentários
reprodução instagram

As minhas tias paternas não compram produtos em brechós e tentam me converter às ideias. O motivo é simples: "Vêm com más energias!".
Ofensivo.

Hoje, li algo que me incomodou: "Não compre filtros na rua de qualquer pessoa (sic), alguns foram feitos por presidiários e não contém boas energias!". Fala-se de filtro dos sonhos, mas vamos falar das coisas, com amplitude.

Alguém tão próximo de mim, com sangue pulsante da minha avó materna, esteve em reclusão por anos, cumprindo pena por posse de entorpecentes com intenção de tráfico e distribuição. Ele disse que era para o próprio consumo - e eu acredito, sabemos quem é que é o alvo da PM.
Não sei ao certo se, nas visitas, entre idas e vindas da tua mãe, ela trouxe um novelo de lã que sobrara de um dos teus trabalhos. Minhã mãe fez uma blusa macia, que isola o frio do lado de fora do meu peito - e mantém em temperatura natural meu coração aquariano.

Passaram os anos, sigo/seguimos sem consequências má enérgicas. E não que em momento algum, esperei essa tal energia inimiga chegar. Mas ela não veio.

Os artigos produzido das atividades oriundas da detenção, são frutos da promoção  - ou tentativa de - da reinserção social por meio socioeducativo. Como pode advir do mal, o fruto gerado em nome do bem?
É bom que tomemos conhecimento de uma absolvição com nome de "redenção", o que não se aplica para todos - pois depende tão somente de cada um - mas, porque não considerá-la no pré julgamento?
O julgo humano não é suave.

Quanto aos brechós: quem sofrerá, ou deixará de ser ajudado, com a minha rejeição em apoiar o terceiro setor?
O terceiro setor é a ação afirmativa aos necessitados, que compensa o descaso do Estado; a politica publica de iniciativa privada. O quão difícil às organizações assistenciais e entidades filantrópicas, é "empreender" em prol social? Não devemos compactuar com os incentivos?

Mas é obvio que a recusa justificada se trata de espiritualidade. Quanto ao que você considera frutos podres: qual é o milagre que teu Santo não possa fazer? Qual a vez que teu Santo renunciou a tua proteção? Que Santo é bom para você, mas se recusa amparar a criatura desamparada?
[Para além disso, a hipocrisia: porque você pode doar, mas não pode adquirir originários de doações?]
O meu Santo é onipotente, onisciente e onipresente. Eu não ousaria justificar minha deformidade ótica em Teu nome.

Comprar roupas e artigos novos baratíssimos, proveniente de mão de obra análoga a escravidão, promovendo o capitalismo selvagem, não tem problema?

Somos melhores que o outro? Não eu, por compaixão. Nossas escolhas deixam de ser justas quando causa dano ou lesão ao outro.

Quem ou o que, têm sido nocivo? Depende da perspectiva de quem vê.

"Das utopias"

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"Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!"

💬 Mário de Miranda Quintana foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro (30 Julho 1906 - 05 Maio 1994).

via: "Escritas.org"
 
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